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Cícero logo percebeu que a rotina do seminário seria marcada pela vigilância e pela disciplina. O dia começava cedo, antes do nascer do sol. Às 5h15, deveria estar de pé, com a cama devidamente arrumada, já cumprida a obrigação das orações e meditações matinais. Os dormitórios permaneciam trancados o resto do dia, só sendo permitida a presença ali em casos extraordinários e, ainda assim, com a devida autorização e supervisão da direção da casa. Às cinco e meia da manhã, Cícero e os demais colegas seminaristas assistiam à missa, de onde saíam direto à sala de estudos ou, se fosse dia marcado para tal, à sala de banhos, aberta por curtos períodos, sendo rigorosamente fechada depois do horário determinado. Só então, às sete e meia, iam para o café - isso nos dias em que o jejum não era obrigatório. O resto da manhã de Cícero era dividido entre aulas e momentos de estudo individual, nos quais, ordenava o regulamento, deveria ser observado o mais profundo e respeitoso silêncio.
Cícero almoçava ao meio-dia, rezava o terço e voltava à sala de aula onde, ao lado de matérias como Filosofia, Retórica, Teologia Dogmática, Humanística e Direito Canônico, recebia lições de Liturgia e de Canto Gregoriano. Em seguida, permanecia em estudos intensivos e obrigatórios até as seis da tarde, quando os seminaristas celebravam a Hora do Angelus - o instante da anunciação feita pelo arcanjo Gabriel a Maria. No início da noite, seguiam-se outras duas exaustivas horas de estudos e leituras espirituais compulsórias. Revistas, jornais e livros não-religiosos eram expressamente proibidos. Cartas enviadas por parentes eram lidas com olhos de lince pelo reitor, antes de serem entregues aos respectivos destinatários.
Nas horas vagas, Cícero e os outros alunos podiam folhear livremente apenas a Bíblia, o Breviarium Romanum e alguns outros poucos títulos como O Caminho do Céu - Considerações sobre as máximas eternas e sobre os segredos e mistérios da Paixão de Cristo Nosso Senhor para cada dia do mês. O regulamento previa ainda que o jantar devesse ser servido às 20h, após o qual era obrigatória a oração noturna. Às 21h15, pontualmente, todos deviam estar recolhidos ao silêncio e à escuridão do dormitório, com exceção daqueles que obtivessem autorização para estudar à luz de vela por mais 45 minutos.
Para Cícero e para qualquer outro colega, a privacidade e os minutos de solidão eram vetados. Possíveis conversas nos quartos ou sob as arcadas dos longos corredores do seminário eram reprimidas com austeridade. "Nos recreios evitarão os gritos desentoados, jogos e brinquedos ofensivos ou grosseiros", determinava o regulamento. Muito riso era sinal de pouco siso, dizia-se. Saídas não autorizadas eram punidas de modo exemplar, com imediata expulsão. De modo estratégico, o imenso casarão assobradado, um dos poucos prédios de dois pavimentos de toda a capital cearense, ficava situado distante do então centro da cidade. O isolamento físico do prédio garantia total imersão nas obrigações religiosas. Uma possível familiaridade com os criados que serviam ao seminário -- faxineiros, lavadeiras e cozinheiros, por exemplo - era repreendida. Havia um intermediário nomeado especificamente pela direção da casa para receber encomendas vindas de fora, inclusive a roupa limpa, nos sábados à tarde. Uma das raras ocasiões de contato de Cícero com o mundo exterior se dava nas missas domingueiras realizadas na capela, frequentada por pescadores e peixeiros que viviam na praia ali perto.
Internamente, os alunos do curso preparatório eram separados dos mais adiantados, que frequentavam o curso teológico e estavam mais próximos da ordenação. Como medida adicional de controle, o primeiro artigo das regras internas proibia, de forma explícita, que fossem "cultivadas amizades particulares" entre colegas de seminário. Não se estava ali para fazer amigos e camaradas, mas para se aprender a servir a Deus.
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